quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sofrendo em Paris

Dizem que dinheiro não traz a felicidade, mas, dizem, também, que ajuda sofrer em Paris. E uma pessoa sem dinheiro em Paris, como seria sua sofreguidão? O fato é que eu estava em Paris, com vontade de gastar e sem dinheiro. De qualquer maneira acredito que sofrer em Paris é sempre chique, com ou sem grana. Mas vamos à história.
Estava hospedado em um hotel na rue de Rivoli, mais precisamente o Hôtel de Ville. Devo dizer que tinha a quantidade de estrelas compatíveis com o tamanho de meu bolso. E localizado em um bairro compatível com o tamanho de minhas pernas. Sempre gostei de perambular, sem rumo, para conhecer as cidades em que visitava e Paris não seria diferente. Naquele fim de tarde eu caminhava pela rue Clos dês Blancs-Manteaux, e, em uma de suas travessas deparei-me com um pub que me pareceu ideal para complementar o fim do meu último dia na capital francesa.
O pub parisiense parecia agradável e aconchegante. No hall, um educadíssimo monsieur me recebeu com um meloso bonsoir convidando-me para entrar. Era magro, alto, estava todo de preto e tinha luvas brancas. Lembrou-me um artista recentemente falecido, mas foi só de relance, pois dentro do bar eu já havia esquecido a tal artista recentemente falecido. Naquele momento poucas pessoas estavam no recinto, três casais, um senhor solitário em uma das mesas e uma morena sentada em uma das cadeiras junto ao balcão. Cabelos lisos e muito bonita, mas parecia profundamente triste. Bebericava uma dose de Martini. Como a gente deve facilitar as coisas para o destino, sentei-me duas cadeiras adiante da moça, junto ao balcão.
Pensei em pedir uma dose de um purinho Chico Mineiro... brincadeirinha com o barman, mas desisti. Uma Cuba Libre? Seria um sacrilégio num pub em Paris. Então, pedi uma dose de um legítimo conhaque. Foi-se em uma talagada. Pedi outra. Estava meditando acerca da vida, minhas idas e vindas pela capital francesa – Musée Du Louvre, Mona Lisa, Tour Eiffel e, logicamente, a francesa ao meu lado –, quando, de repente, ouvi um soluço seguido de um suspiro. Minha vizinha de balcão estava externando sua tristeza e uma lágrima percorreu-lhe o rosto.
Um gaúcho nascido nas Missões, filho de pai maragato descendente de farroupilha, tinha que ser prestativo com a prenda francesa. Com a ponta de meu lenço colorado, enxuguei a lágrima da morena. Só não me perguntem o que fazia um gaúcho solitário em Paris dentro de um pub com um lenço maragato. Devo acrescentar que dos apetrechos da indumentária guasca eu tinha apenas o lenço colorado. Bem entendido?
A jovem senhora disse que se chamava Carla e que seu relacionamento com o esposo não estava muito bem. Muitos compromissos sociais e muitas viagens. E eu fiquei imaginando como muitos compromissos sociais e muitas viagens podem desgastar um relacionamento. Mas julguei que a jovem senhora era uma pessoa com muito dinheiro que estava sofrendo em Paris. Também falou que era cantora e eu fiquei com a impressão que já tinha visto aquele rosto em algum lugar. Convidei a bela Carla para sentarmos em uma discreta mesa próxima a parede. Ela pediu uns petiscos que não identifiquei pelo nome. E quando o garçom trouxe, eu continuei não identificando. Carla saboreava com gosto aquela guloseima. Eu sugeri um J.P. Chenet, mas Carla solicitou ao maître um Lois Corton 99. Naquele momento comecei a ficar preocupado com o tamanho da conta e com o provável rombo no meu cartão de crédito. Os assuntos fluíam e a bela Carla estava mais alegre, até esqueceu, por alguns instantes, os momentos de agruras. Adorava ver seu biquinho quando ela dizia oui. E eu custei muito para explicar para Carla o que queria dizer tchê.
A noite encaminhava-se serena, mas um tumulto em frente ao pub desvirtuou o que poderia ser prazeroso para um latino-americano e uma francesinha. Ânimos exaltados e muito burburinho. Percebi que a bela Carla ficou apreensiva e veio em minha mente, não sei por que cargas d’água, a tragédia com a Lady Diane. Então, a apreensão de Carla passou apara mim. Foram instantes muito tensos na porta do bar. Acho que alguém falou a palavra “parlapatão” em alto e bom som e imagino que deve ter sido com o dedo em riste. Foi um alvoroço geral, mas os ânimos foram se acalmando e, em minutos, reinava a normalidade. Alguns minutos após, o maître veio até a nossa mesa e se dirigiu, respeitosamente, a minha companhia. Achei o garçom meio petulante, mas as palavras dele foram convincentes. E eu quase desabei da cadeira.
– Senhora Carla Bruni, seu esposo Nicolas Sarkozy está lhe aguardando no carro aqui em frente ao bar – deu um sorrisinho amarelo para mim e saiu.
– Senhor gauchô – a bela Carla me chamava de gauchô e fazia biquinho quando pronunciava. – obrigado pela sua companhia – beijou meu rosto e saiu.
E eu sequer tinha visto o preço da garrafa do vinho. Seguindo os conselhos de uma ex-ministra, relaxei. E continuei saboreando o restante do Lois Corton 99.
– Monsieur gauchô, a conta – falou o maître ironicamente e com o infactível sorrisinho amarelo e idiota.
O suor correu pela minha testa ao ver os vários zeros a direita do 3. E aquilo tudo em euros.
– Fique tranquilo monsieur gauchô. A senhora Carla Bruni pagou a conta ao sair – e novamente o antipático sorrisinho amarelo.
– Então, por gentileza, gente boa – o gente boa eu falei em português. – me traga mais uma dose de conhaque – e devolvi o sorrisinho amarelo.

sábado, 31 de outubro de 2009

Companheiro Judas

Uma foto em que aparecem no mesmo palanque Lula, Sarney e Collor sorridentes, faceiros e como íntimos amigos, nos faz pensar com os olhos no bojo da cuia de chimarrão e um dedilhar de milonga missioneira no aparelho de som.
Há poucos anos seria impensável um palanque com aquela formação. Uma heresia política, uma afronta a ideologia e a trajetória de cada um dos três. Se, em um passado não tão remoto, houvesse o encontro, os sorrisos seriam amarelos e todos estariam desconfortáveis no improvisado “altar”. A foto sinalizava o que estava por vir. Um acordão entre PT e PMDB com vistas às eleições de 2010. Acordos fazem parte do tabuleiro político de poder. Mas existem acordos e acordos. Nesse caso, todos se transmutam em companheiros com um glorioso passado de lutas. Tudo parece fantasioso, falso e frágil com um único objetivo: manter o statu quo. Para exemplificar, nesse jogo de faz de conta na política brasileira, com vistas a eleição do ano que vem, o presidente da Fiesp e um evasivo ex-craque de futebol tornaram-se eméritos socialistas. Seriam os neossocialistas? Certamente, estarão nos comícios de Dilma.
Com esse acordão de cúpula para a candidatura a presidente do Brasil, em alguns estados a coisa fica encruada. No Rio Grande do Sul, em que palanque o Lula subirá? A coalizão terá o palanque de Tarso e o de Rigotto/Fogaça. Ou, quem sabe até lá, os gaúchos também terão uma chapa única apoiada por Lula?
Para justificar essas alianças de ocasião o presidente Lula afirmou que “se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação em um partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”. Ainda bem que Hitler está “mortinho da silva”, pois se ele voltar e tiver votos em um partido qualquer... (sic). Nem é bom pensar, mas o fato é que em política nada mais me surpreende. Se alguém disser que Ronaldo Caiado virou socialista, eu acredito.
Nessa coalizão a qualquer custo – lembremos que Judas se vendeu por 30 moedas – poderá haver uma traição. Se Pedro, que fazia parte do campo majoritário de Cristo, o negou três vezes, fica explícito que os cuidados devem ser redobrados ao se fazer acordos com os “Judas” de plantão. Um vice escolhido “a lo loco” poderá ser uma pedra no sapato por quatro anos.
Enfim, um velho vizinho maragato dizia do alto de sua sabedoria campeira “diga-me com quem andas e eu direi quem és”, mas em se tratando de acordos políticos e pragmatismo eleitoral o ditado não vale. Ou vale?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Como montar um time campeão


Diante das frustradas expectativas da dupla Gre-Nal principalmente o Inter – que por vários anos começa o campeonato brasileiro como virtual campeão –, resolvi elaborar uma espécie de cartilha para montar um time vencedor. Ideias simples que ajudarão dirigentes incautos.
O primeiro passo é buscar um goleiro nas categorias de base do Inter que já foi uma escola de primeiro mundo. Qualquer guri que seja alemão e tenha a cara vermelha. Um iluminado que nos faça lembrar o “vai que é tua Taffarel”. Também pode ser um veterano goleiro em final de carreira, mas terá que ser alguém que tenha feito contrabando pelo rio Uruguai e arranhe no portunhol. Deve ser mulherengo e assíduo frequentador de prostíbulos de quinta categoria após os jogos de domingo. Tem que ter as mãos grandes, dedos tortos e o rosto com cicatrizes de entreveros com ferro branco.
Os zagueiros têm que ser dois brutamontes. Um deles tem que ser um castelhano que saiba recitar versos de Pablo Neruda e que tenha um cotovelo de aço. Tem que saber apreciar um bom vinho tinto. Pode ser chileno, argentino ou uruguaio e, no futuro, vir a ser candidato a vice-presidente em seu respectivo país. O outro deve ser do interior gaúcho e que tenha jogado descalço nas várzeas de Passo Fundo ou Santiago do Boqueirão. Se o sobrenome for Pontes tem a vaga garantida. Se for Perez manda embora.
Os alas não precisam saber jogar futebol. Basta terem um fôlego de leão e que tenham senso de direção para mandar a bola para o gol contrário. Curto e grosso: saibam dar balão para a área adversária.
Para o meio campo nós devemos buscar um guarda-roupa de quatro portas em Caçapava do Sul e mais dois castelhanos. Um uruguaio e um argentino. Necessariamente descendentes de tupamaros e montoneros. Os revólveres e as metralhadoras eles deixarão no vestiário. Por precaução será colocado detector de metais na entrada do gramado caso eles queiram entrar em campo com armas de fogo. Não seria leal com a equipe adversária.
Dois pontas de ofício e semi-analfabetos, mas com o mesmo senso de direção dos alas. Não precisa ter o mesmo fôlego, mas que treinem com chuteiras de ferro. E que sejam mandados pelas suas mulheres. Em casa devem dizer amém e no jogo partir o ala adversário ao meio.
O centro-avante não precisa ser humano, tem que ser alguém mais próximo dos macacos que saiba pular, xingar, levantar os braços e botar a cabeça na bola.
O técnico tem que usar expressões tipo: bosta, guampa, pata, corno e não deve chiar nas palavras com “s”. Se por um acaso resvalar e chiar nas palavras com “s” deve ser considerado “persona non grata” em toda a pampa “gaucha”. E despachado para seu estado de origem.
E todos devem ser tratados psicologicamente pelo analista de Bagé.
Enfim, cumprindo todo esse roteiro teremos times campeões, só não sei se será de futebol.

sábado, 10 de outubro de 2009

O renguinho da maratona


Todos os anos nossas expectativas são renovadas, mas na realidade o que renovamos no final das negociações são as nossas frustrações com a nossa valorização profissional e aumento real dos salários.
Meu pai tinha uma maneira bem simples de encarar os dissídios – ele era ferroviário no tempo da Maria-Fumaça, Era Vargas e ditadores em geral –, dizia ele: dissídio é índice, o resto é conversa mole para engambelar o trabalhador. Claro que estamos em outros tempos e as nossas negociações não se resumem ao índice e temos uma democracia e um presidente oriundo do povo.
Em todos esses anos, nas assembléias, volta à baila a questão da mesa única. E não será diferente enquanto não for feita uma consulta à categoria para vermos o seu real anseio. A mesa única é uma questão política que resolveremos (?) nos congressos da categoria. Mas temos que ter ciência que é polêmica.
Com relação ao ano de 2009 temos um acordo praticamente aceito pela categoria na Fenaban. No entanto, nas questões especificas dos bancos públicos temos o dissídio encruado. Com ênfase nas negociações da Caixa. E não é a primeira vez nos últimos tempos – diga-se Era Lula. No tempo de FHC era encruado e aniquilado. Bem-entendido? Aliás, quando penso em FHC me vem à mente a privatização da Vale e o sangue me sobe à cabeça.
Bueno, no Banco do Brasil, sem traumas, o índice passou de 6 (Fenaban) para 9%. Assim mesmo em algumas bases foi rejeitado. Na Caixa a proposta foi, simplesmente, insuficiente. Um colega afirmou, em tom jocoso, que a Caixa é o primo pobre dos bancos públicos. Diria que é o filho bastardo. Será que é um prêmio por ser na Caixa onde há maior mobilização?
Estamos num impasse: até quando levaremos a greve? Qual será o momento de encerrarmos esse movimento? Sabemos todos que é mais difícil sair do que entrar em uma greve. Qual o índice que fará com que voltemos ao trabalho? Eu defendo que tenhamos os mesmos 9% dado ao Banco do Brasil. Porque se nós olharmos a defasagem salarial da Caixa e do BB nos últimos 15 anos, abrangendo FHC e Lula, veremos que dará algo em torno de 90 a 100%. Então 3% acima do índice da Fenaban para os bancos públicos é um pequeno e justo avanço na recuperação das perdas. Aí, sim, poderemos dizer que nas negociações específicas, o governo Lula acenou com a recuperação de nossas perdas.
Caso contrário, (Antecipadamente peço desculpas por ser politicamente incorreto, mas a metáfora é espirituosa e bem-humorada), continuaremos – como disse o colega Rejo – o renguinho da maratona, com entusiasmo cheio de vontade, mas sempre correndo atrás e chegando atrasado.
– Esperem por mim! Esperem por mim! Esperem por mim!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A dura vida em Honduras


Antes de a crise estourar em Honduras, alguém sabia que Tegucigalpa era a capital? Particularmente, confesso que não. Nessa aula de geografia eu deveria estar para lá de Bagdá.
Buscando informações acerca desse imbróglio na América Central, percebi que a palavra Tegucigalpa é pomposa. É alguma coisa superior. Imagina alguém dizer “Eu sou nascido em Tegucigalpa. Eu fiz pós em Tegucigalpa”. As portas se abrem como por encanto. Essa sequencia de sílabas é alguma coisa próxima a um alinhamento de planetas. Eu achei muito chique uma transmissão de Tegucigalpa. Até acho que as olimpíadas de 2016... bom, deixa assim.
O fato é que em Honduras a vida anda dura. Um presidente latifundiário oriundo da oligarquia agrária resolveu consultar o povo para mudar a constituição. Manuel Zelaya queria alterar a constituição no intuito de permitir a reeleição. Como o mandato de quatro anos sem reeleição é uma cláusula pétrea, a Suprema Corte não gostou. Uma turma de ex-companheiros também não e os militares muito menos. Assim, numa madrugada o Mel Zelaya é despachado num voo para Costa Rica. Tanto a comunidade internacional como a comunidade gremista não gostaram. E todos acharam que a democracia deveria ser restabelecida em Honduras com a volta do presidente deposto. Roberto Micheletti, o presidente que assumiu, não gostou de ser chamado de golpista. O mundo todo debateu se foi golpe ou não. O Zelaya entrou clandestinamente no país e se refugiou na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Mas a nítida impressão foi de que Zelaya ocupou a embaixada brasileira e a transformou em palanque político para retornar ao poder pelos braços do povo. Novamente, o Micheletti não gostou e, de um golpe só, fechou emissoras de rádio e televisão e introduziu o estado de sítio. Relançando antigos filmes de Costa-Gavras.
Lula disse que não reconhece governo de golpista. O governo brasileiro está correto em não reconhecer governos de ditadorezinhos que calam a imprensa, restringem direitos civis e rasgam a constituição, principalmente se for um paisinho chamado Honduras.
Para mim, modesto palpiteiro, a resolução seria simples. O Zelaya volta para as suas fazendas como um presidente aposentado. Funda a Fundação Mel Zelaya de combate a fome para deduzir alguns trocados no imposto de renda. Micheletti antecipa a posse do presidente eleito em novembro e todos vivem felizes para sempre... simples. Mas as coisas não são tão simples e essa crise em Honduras pode ser maior que a greve dos bancários.
Pode ser insensibilidade minha com os hondurenhos, mas eu estou preocupado em saber o nome gentílico de quem nasce em Tegucigalpa. Pois Tegucigalpa é um nome altissonante e a gente enche a boca ao pronunciar. Eu fiquei dois dias com essa palavra martelando na mente: Tegucigalpa, Tegucigalpa, Tegucigalpa, Tegucigalpa. Afinal de contas, quem nasce em Tegucigalpa é...

domingo, 27 de setembro de 2009

"Caçapava não se entrega"


Quando recebi o convite para escrever uma crônica sobre a cidade de Caçapava do Sul, pressenti um grande desafio. Caçapava tem muita história para ser contada e não seria eu a melhor pessoa para esse fim. Minha ligação com a cidade se reduz a um projeto Rondon na Vila Sul no início da década de 80 e, recentemente, uma visita a feira do livro.
Naquele projeto Rondon, num mês de julho perdido no passado, eu senti na pele o vento Minuano soprando gelado da pampa. Foram duas semanas de muito frio do inverno e muito calor humano de Caçapavanos.
Uma feira do livro nos faz pensar. Uma cidade que organiza uma feira do livro é uma cidade que fomenta a cultura, a arte, e é instigada pela inquietação.
Pensando sobre o Projeto Rondon e Feira do livro, resolvi dar uma cor a essa crônica. E optei pelo vermelho. O vermelho nos remete a outras reflexões que também tem tudo a ver com segunda capital farroupilha.
Tenho um passado maragato, pois meu avô ostentava um garboso lenço vermelho. E meu pai era um fanático torcedor do Internacional de Porto Alegre. Com essa ascendência, era lógico que me transformaria em um fervoroso colorado e, consequentemente, simpático às causas maragatas. Assim a cor vermelha está presente em minha vida desde tenra infância.
A cor vermelha simboliza a paixão, é “caliente” e traz no seu bojo a rebeldia, a revolução. Uma inquietude com o que está posto. E quando falamos em revolução invocamos a Revolução Farroupilha. Caçapava foi domicilio e berço de heróis e está gravada nos anais das nossas glórias. É evidente que, nos dias de hoje, Caçapava tem chimangos, maragatos, gremistas e colorados. A convivência é harmoniosa e a rivalidade fraterna. Mas como colorado que sou também gostaria de falar de outro ilustre filho de Caçapava e que também nos remete ao vermelho. Assim, resolvi incluir nessa crônica um humilde caçapavano. Não era revolucionário e não era farroupilha, mas foi ídolo em minha adolescência. Chamava-se Luis Carlos Melo Lopes. Craque da bola e um dos responsáveis pelas conquistas do Internacional. O nosso grande centro-médio Caçapava, a muralha que barrava os ataques adversários.
Para homenagearmos a cidade de Caçapava do Sul, é justo que relembremos o craque nascido nessa terra e que deu tantas alegrias ao futebol gaúcho.
Nos dias atuais somos tomados pelo pessimismo em virtude do grau de desmandos que assolam o país, sentimos falta de heróis e de guerreiros para serem novas referências. Precisamos de novos farroupilhas para ressaltarmos a ética e novos Caçapavas para barrarmos a indecência. O brado “Caçapava não se entrega” se equivale a “Esta terra tem dono”. Assim, mostrarmos ao mundo que nosso coração bate com paixão e oferecemos um abraço fraterno porque aqui, também, a fraternidade é vermelha.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Que loucura Jorge!!


O encontro foi casual.
Num dia de chuva Mário oferece abrigo em seu guarda-chuva para a linda Iracema atravessar a rua.
Debaixo da marquise Iracema estava sorridente e simpática. Mas tudo ficou no “muito obrigado” e no “agradeço sua gentileza”.
Mario ficou abobado pelos lábios carnudos de Iracema e o seu alvo sorriso.
Mario passou a tarde pensando em Iracema numa desilusão de dar dó. Conformado, pois dificilmente a encontraria outra vez. Mas a ironia do destino ainda estava para pregar mais uma peça. Dois dias após, Mario estava numa fila para assistir ao show de uma banda gaúcha no Gigantinho. Caminha lentamente para entrar no ginásio quando de repente vira-se. Quem estava ali ao seu lado? Ela mesma, a deslumbrante Iracema.
– Você não á a moça da chuva, ou melhor, a moça que se abrigou em meu guarda-chuva?
– Isso mesmo! Estou lembrando, você... veja como é o destino. Muita gentileza sua.
Ficaram juntos e se divertiram assistindo ao espetáculo dos roqueiros. Pularam e cantaram durante duas horas. Ao final, Mario convida Iracema para irem a um bar. Na mesa do bar a conversa fluía solta. Iracema ria das frases de efeito de Mario. Mario ria do sorriso de Iracema.
Naquela mesma noite foram para o apartamento de Iracema. Ao som de Martinho da Vila.
//É devagar. É devagar. É devagar. É devagar. Devagarinho//.
À meia-luz, começaram a dançar no meio da sala. O primeiro beijo foi o sinal. Mario colocou a mão por dentro da calça jeans de Iracema e acariciou seu ventre. Em instantes estavam rolando abraçados pelo chão aos beijos e gemidos. Quando ambos estavam despidos, Iracema pára e faz uma indagação.
– Marinho! Posso te chamar de Jorge?
– Jorge? Meu nome é Mario.
– Sabe o que é Marinho, eu fico muito excitada falando o nome de Jorge quando estou transando. Não é nada com você é que Jorge me deixa louca. Eu falo Jorge o tempo todo e fico doida. Fico doida e faço tudo o que tu quiseres, Marinho.
– Então tudo bem.
Mario estava imaginando mil coisas com os lábios de mel de Iracema. Completamente nus no meio da sala, Iracema começou a acariciar Mario com seus lábios carnudos. Mario urrava de prazer.
– Ssilêêêênciiiooooooo vocês aí em cima – foi o berro que veio da rua.
Mario e Iracema estavam em outra dimensão e não ouviam nada além de seus gemidos de dor e excitação.
– “Ceminha” vira de costas? – Ceminha era como Mario começou a chamar Iracema.
– Viro Jorge. Vem Jorge. Que loucura Jorge!
– Hhhuuggghuuuhhuuu! Mario estava exausto e acabado.
Iracema gritava, gritava para todo prédio ouvir.
– Que loucura Jorge. Que loucura Jorge. Que loucura Jorge. Que loucura Jorge. Que louuuuccccuuuuuuuuuura Jorge.
De repente todo prédio começou a gritar e foi uma gritaria infernal e uníssona. Em ritmo de samba. /Que loucura Jorge. Que loucura Jorge. Que louuuuccccuuuuuuuuura Jorge.//
Sentado no sofá Jorge, ou melhor, Mario saboreava um cigarro. Cantarolava um samba de Adoniram Barbosa. // Iracema! Eu bem lhe dizia, cuidado atravessar a ruuua, eu falava, mas você não me escutava não. Iracema você atravessou contramão.//